Projeto “Uma Filósofa por Mês”

Quantas filósofas são estudadas nos cursos de graduação em filosofia? Quantas filósofas aparecem nos livros de história da filosofia? Com essas perguntas inquietantes em mente, um grupo de estudantes e professoras do departamento de filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina – Brasil criou o projeto “Uma filósofa por mês”. A cada mês, iniciando em março de 2020, serão realizadas minicursos, palestras, exposições artísticas sobre uma filósofa em específico. Começamos com as pitagóricas, depois Hipátia de Alexandria, Hildegarda de Bingen, Christine de Pizan, Margareth Cavendish, Marie de Gournay, Nísia Floresta, Maria Firmina dos Reis, entre outras. O objetivo do projeto é difundir quem foram as filósofas e ampliar o acesso bibliográfico, imagético e historiográfico das obras dessas mulheres.

Esse objetivo está em consonância com a pesquisa de Carolina de Araújo (UFRJ-Brasil, 2016), que constatou a baixa presença de mulheres nos cursos de graduação, mestrado e doutorado em filosofia no Brasil, bem como nos cargos de docência. Sendo que, quanto maior a posição acadêmica, menor é a presença das mulheres.

Questionamos, então, quais são as coincidências da ausência de filósofas no currículo e a ausência de mulheres nas cadeiras das salas das universidades brasileiras? Tendo tal problema em vista, esse projeto é influenciado pelo ativismo feminista acadêmico, que congrega pesquisa, extensão e interdisciplinaridade, e traduz também a ideia do ativismo como uma forma de pedagogia, pois propõe um olhar específico sobre as relações de gênero no campo da filosofia, nos seus processos de aprendizagem, nas metodologias e no mundo acadêmico, com vistas a contribuir para um sentido expandido de pluralidade e democracia para o currículo acadêmico e para a história da filosofia.

Integrantes do projeto: Janyne Sattler, Ilze Zirbel, Camila Kulkamp, Shayenne Bruna Alves, Ingrid Mathilde Meurer, Maurício Rasia Cossio, William Martini, Simon Aftalión, Vinícius Arion, Guilherme Pinto Ravazi, Matheus Colares e Carlos Bubols.

Ano Um


Uma revisão feminista da história da filosofia

por Janyne Sattler

Tenho sabido da biografia de mulheres filósofas há bem pouco tempo, relativamente ao tempo que tenho passado no universo acadêmico da filosofia. Minha trajetória foi, em quase todos os aspectos, canônica. E, de modo canônico, eu aprendi que a história da filosofia era uma história de filósofos. Mas uma pergunta que demorei tempo demais para fazer é saber  por quais meandros e mecanismos uma história que se conta é a história de todo mundo – ou, dito de outro modo: a quem pertence a história da filosofia? Ademais: para quem ela é contada? E por quem ela é escrita?

Tenho para mim que estas perguntas têm feito cada vez mais parte do cotidiano acadêmico contemporâneo, embora em nossa cultura filosófica brasileira ainda estejamos a passos lentos em direção a uma tarefa de inclusão à história da filosofia – que poderia ser uma “tarefa de justiça”, também, nas palavras de Claude Tarrène.

É esta a senda que almeja trilhar o Projeto de Pesquisa e Extensão Uma Filósofa por Mês, no intuito de delas fazer as nossas conhecidas tanto quanto o são os nomes dos filósofos.

Mas não apenas os nomes, é claro. Senão suas biografias, suas obras, seu alcance, seus problemas, seus enviesamentos, e o seu direito de serem levadas a sério como pensadoras detentoras do seu próprio pensamento.

Christine de Pizan

Uma revisão feminista da história da filosofia é, assim, aberta e afeita a descobertas e aos surpreendentes movimentos relativos à construção do cânone – que aqui como na literatura e nas artes exige de nós uma paciência inquisitiva: por que de Sara, a pitagórica, não sabemos mais do que o nome? Por que Hildegarda de Bingen é descrita como mística, mas não como filósofa? Por que Christine de Pizan erigiu uma Cidade das Damas às portas da caça às bruxas? Será o abolicionismo de Maria Firmina dos Reis tão somente literário?

Ao longo de todo o ano, com uma filósofa por mês, nossos esforços estarão voltados a reflexões que nos encaminhem para algumas respostas possíveis a perguntas que uma perspectiva feminista sobre a história da filosofia não cessa de colocar a nossa cultura filosófica e ao nosso currículo acadêmico.

 

Parceir@s do projeto:

5 comentários em “Projeto “Uma Filósofa por Mês””

  1. Pena ser tão distante😞
    Adoraria participar. Fica a sugestão de futuramente oferecer na forma EaD.
    Um abraço 🌷💝

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  2. Como egressa de mestrado do PPGFIL-UFSC fico extremamente feliz e orgulhosa da proposta de vocês. Obrigada pela abertura que estão nos dando!

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